Uma
nova epopeia
Campeonato
do Mundo de futebol 2018
Tinha chegado o momento que traçava o início de uma nova
epopeia para a seleção das quinas. Era o momento da partida da seleção
portuguesa para a Rússia. Momento para o qual a seleção portuguesa de futebol se
tinha preparado durante meses. Não tinham faltado mensagens de apoio e de esperança
que caiam nos ombros dos 23 jogadores escolhidos para viajarem para este
mundial de futebol. Estar presente numa competição desta magnitude, é um desejo
de qualquer atleta e, as emoções que se sentiam eram para muitos, únicas e indiscritíveis.
Algumas caras novas, que justificavam a sua presença com as suas qualidades, faziam
agora parte daquele grupo que tinha como objetivo dar o seu melhor jogo a jogo.
Esse era o discurso utilizado pela maioria dos jogadores, não querendo adiantar
qualquer euforia, num campeonato que se avizinhava ser muito difícil. Era
preciso manter a concentração total naquele curto campeonato, sem direito a
segundo jogo para corrigir possíveis erros.
Eles desejavam estar ao seu melhor nível
físico e psicológico para serem um dos escolhidos pelo mister, para integrar a
equipa inicial. Este momento era sempre dividido entre a alegria e a tristeza
de muitos jogadores, que já tinham feito parte desta seleção e, agora por
diversas razões que só o treinador poderá explicar, não faziam parte das
escolhas do selecionador português. Éder, esse nome quase desconhecido do mundo
inteiro, fora transformado em herói, ao marcar o único golo, na final do
campeonato da Europa contra a França. Um pais com muitos imigrantes portugueses
a viver por terras gaulesas, tiveram certamente umas das maiores alegrias, ao assistirem
a uma final gloriosa. Foi um herói,
conseguiu um feito único, mas não foi chamado pelo selecionador para integrar o
leque de jogadores que viajava hoje para a Rússia. Uma mágoa que Éder, fez
questão de desabafar com o selecionador Português ao enviar uma carta.
Caríssimo Mister,
É de coração apertado
que lhe escrevo neste mesmo instante. Um instante que já vai longo. Um instante
em que já passaram algumas horas. Horas em que relembrei muitos dos momentos
vividos faz daqui a pouco tempo dois anos. Em que relembrei os dias
inesquecíveis vividos naquele “nosso lar” onde fizemos das fraquezas forças e
desenhámos a mais bela de todas as pinturas já realizadas pelo Futebol
Português.
Não, não vou ao Mundial
2018! A tristeza invade-me. O vazio por instantes sobressalta-me.
Se é verdade que tenho sentido que seria o mais previsível, não deixei nunca de acreditar que o meu nome poderia fazer parte dos selecionados. Infelizmente não. Infelizmente não vou viver mais uma epopeia que acreditava, e continuo a acreditar, se poderia tornar épica.
Se é verdade que tenho sentido que seria o mais previsível, não deixei nunca de acreditar que o meu nome poderia fazer parte dos selecionados. Infelizmente não. Infelizmente não vou viver mais uma epopeia que acreditava, e continuo a acreditar, se poderia tornar épica.
Bem sei que ano após
ano despontam jovens de grande valor no nosso futebol. Que a minha época não
foi tudo aquilo que esperava. De qualquer forma, sempre senti que a minha
presença poderia ser benéfica a todo o grupo, não só pelo simbolismo (e nem eu
queria que fosse somente por esse motivo), mas também pelo que poderia oferecer
de diferente à nossa selecção.
Sonhei. Sonhei que a
história se poderia repetir. Bem sei que diz o ditado que isso não acontece.
Não há duas histórias iguais. Mas a verdade é que, mesmo não sendo aquilo que
muitos desejavam que eu fosse, mesmo não sendo o primor técnico que os demais
muitas vezes cobram, sinto e acredito que tenho algo de especial. Que estou
talhado para os momentos mais solenes. Depois do 10 de Julho de 2016, do 5 de
Maio de 2018, acreditei num 15 de Julho de 2018. Quis o destino que nunca
estarei presente fisicamente num eventual jogo pelo título mundial no qual
desejo que estejamos presentes. Mas estarei presente em espírito.
Mesmo não fazendo parte
dos 23, sinto-me, ainda assim, parte integrante deste grupo. Talvez sejamos 40
e não 23. Os 40 que o mister costuma sempre referir. Sei que estarei nas botas
do Gonçalo. Tal como o Semedo estará nas subidas do Ricardo ou o Ruben na visão
periférica do Manuel Fernandes. Sei que o Neto estará em cada antecipação do
Ruben e o Nani estará em casa desconcertante drible do Gelson.
É este sentimento de
partilha, de união, de descontentamento contente, de orgulho pelos outros,
mesmo que isso implique a nossa “menor felicidade”, que nos levou a alcançar o
que atingimos, e que acredito nos poderá levar de novo ao alcançar de um sol
brilhante, mesmo que numa Moscovo obscura. Porque esta selecção é muito mais
que um mero grupo de 23 rapazes que de vez em quando se juntam para representar
o seu pais. Esta selecção é a selecção da partilha, do companheirismo, do
fazermos das incertezas de cada membro do balneário as nossas mesmas
dificuldades. E esse foi e será sempre o maior mérito do mister, e também
aquilo que mais me faz “sofrer” por não vos acompanhar.
Não quero abusar do seu
tempo. Quero somente desejar que nas próximas semanas o seu tempo seja curto
para ler emails, e que o meu seja longo e emocionante. Será sinal que este país
estará a demonstrar toda a nossa qualidade nessa longínqua e sonhada nação
Russa.
Um abraço para si e
para cada um que consigo partirão nessa viagem onde o céu é o limite.
Éder
Uma carta que acabou
por ser partilhada mais tarde pelo mundo. As palavras do jogador, mostravam
claramente a destruição do sonho de estar presente neste campeonato do mundo.
Os jogadores de futebol, tal como em outras modalidades desportivas ou
profissionais, passam com muita facilidade de herói a vencido, de imprescindível
a inútil. É preciso uma força quase sobrenatural para aceitar e lidar com estas
mudanças.
Esta partida para a Rússia, levava também na bagagem um
filme sem fim à vista. Alguns jogadores do Sporting, tinham batido com a porta,
ao apresentarem as suas cartas de rescisão de contrato com o clube, depois dos
últimos acontecimentos em Alcochete. Uma perfeita batalha campal encomendada,
com 50 indivíduos com a cara tapada entram no centro de treino do Sporting com
bastões e distribuíram o pânico, agredindo os jogadores e equipa técnica já no
interior dos balneários. Rui Patrício, o dono das redes da seleção portuguesa e
capitão do Sporting, fora o primeiro, depois seguiram-se Bruno Fernandes, Gelson Martins e
William de Carvalho. Um tema que iria continuar a encher jornais, temendo que
este assunto pudesse desviar o foco do grupo do campeonato do mundo.
Albuquerque tinha estado no campeonato da Europa, assistindo
de perto á conquista da taça daquele campeonato e, erguida pelas mãos dos
jogadores da seleção portuguesa. Ele assistia pela televisão ao embarque dos
jogadores para a Rússia. A sua condição de saúde, não iria permitir que saísse para
muito mais longe do seu quarto. Ele determinava que o facto de a seleção
portuguesa jogar a quilómetros de distância de Portugal, pudesse ser uma
vantagem para estes jogadores, agora com futuro inserto. Uma espécie de retiro espiritual,
ainda que não fosse o caso. Contudo a distância, a pressão dos jogos, podiam
ditar um sentimento diferente e um mau estar no grupo.
O avião dirigiu-se para a pista, já com toda a equipa a
bordo. Dezenas de jornalistas, tiravam os últimos apontamentos e fotografias. O
nome de Portugal estampado naquele avião iria subir aos céus, para marcar o início
desta epopeia, desta vez pelo ar, ao invés de outros tempos quando navegou pelo
mar, á procura de novas conquistas.



